Tesouro Direto: acabou o investimento LIVRE DE RISCO?

O Tesouro Direto sempre foi apontado como um ativo livre de risco por ser lastreada nas dívidas do Tesouro Nacional. O problema é que o Brasil está abusando da irresponsabilidade e o mercado está emitindo os sinais de alerta.

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7 minutos de leitura

No último mês, os investidores de Renda Fixa tomaram um verdadeiro susto ao verem que alguns ativos do Tesouro Direto fecharam no prejuízo como poucas vezes se viu na história recente do Tesouro Direto, acabando com o principal mito para quem investe em Renda Fixa: é impossível perder dinheiro.

Há algum tempo eu venho alertando sobre a alta da inflação e como você pode se proteger dela, pois tenho observado uma sucessão de equívocos cometidos pelo governo na condução da agenda econômica do país, sendo a queda de preços do Tesouro Direto um forte sinal do mercado ao governo, avisando-o que ele está no caminho errado.

Mais importante que o fato dos ativos do Tesouro Direto terem fechando no vermelho é entendermos os motivos que levaram a este resultado e o que podemos esperar para o futuro da economia nacional.

Se você botou dinheiro numa coisa, acompanhe.

Sérgio Machado, Sócio-Fundador da SF2 Investimentos

AVISO: Este material NÃO é recomendação de compra ou venda de ativos. O intuito desta página é exclusivamente educacional, com o intuito de ensinar a você como se analisar Ações, Fundos Imobiliários e Setores da Economia. Você é quem deve decidir o seu posicionamento em relação às ações da empresa analisada.

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Tesouro Direto – O que é?

O Tesouro Direto é um programa fundado em 2002 pelo Governo Federal como forma de disponibilizar ao investidor comum a possibilidade de comprar títulos de dívidas do Tesouro Nacional em troca de uma remuneração pela aquisição destes títulos, com aplicações a partir de R$30,00. Com esta emissão de dívida, o Governo Federal possui uma alternativa para financiar os seus gastos, sejam eles com projetos ou simplesmente para custear a caríssima máquina pública (salários, prédios, privilégios, etc).

Eu já escrevi um artigo comentando um livro sobre Tesouro Direto, e vou deixar o link aqui para você.

Como todo empréstimo de dinheiro, o credor é remunerado com um prêmio baseado no fator Risco x Retorno, sendo esta remuneração composta por um indexador + um prêmio de risco, que no caso do Tesouro Direto pode ser os indexadores IPCA, SELIC ou um valor PREFIXADO.

No momento de adquirir um título do Tesouro Direto você terá a opção de escolher entre diversos títulos de dívidas disponíveis, onde cada um possui um prazo de vencimento, indexador e prêmio de risco diferentes. Abaixo coloco alguns exemplos (para acessar a lista completa no site do Tesouro Direto, clique aqui) :

  • Tesouro Prefixado 2023 – 4,93%
  • Tesouro SELIC 2025 – SELIC + 0,1873%
  • Tesouro IPCA 2026 – IPCA + 2,88%

Como exemplo, o título Tesouro SELIC 2025 pagará, para quem segurar o título até a sua data de vencimento (01/03/2025) SELIC + 0,1873% . Caso a pessoa resolva vender este título antes do prazo, ela sofre o risco da MARCAÇÃO A MERCADO, que nada mais é do que pagar o valor que está sendo negociado no data que ela pretende vender o título.

Tesouro Direto Riscos

Seja investimentos de Renda Fixa ou Renda Variável, o que você precisa saber é que não existe investimentos com risco zero. O que existe são investimentos com maior grau de risco e outros com menor grau de risco. Lembre-se que até a Poupança já foi altamente arriscada quando foi confiscada pelo Governo Collor.

No caso específico do Tesouro Direto, os riscos que o investidor corre são o do Tesouro Nacional não honrar os seus compromissos deixando de remunerar os seus credores ou quando o investidor necessita retirar o seu dinheiro antes do prazo de vencimento, correndo o risco de sacar um valor abaixo do investido e sofrendo com o efeito de Marcação a Mercado, que será explicado ao longo deste artigo.

Reserva de Emergência e Reserva de Oportunidade

Para quem está iniciando os estudos sobre organização financeira e investimentos, com certeza já ouviu falar sobre os termos Reserva de Emergência e Reserva de Oportunidade. A Reserva de Emergência é um fundo que a pessoa deve ter guardado para cobrir despesas emergenciais, para ser usado em casos de suspensão inesperada de renda (doença que impossibilite a pessoa de trabalhar, desemprego, etc). Já a Reserva de Oportunidade é um fundo que o investidor pode optar em ter para comprar Ações ou Fundos Imobiliários em períodos de baixa, potencializando a rentabilidade da sua carteira de ativos.

Para ambas as reservas, o aconselhado sempre foi deixá-los em um tipo de investimento que ofereça liquidez diária e baixo risco, sendo os títulos do Tesouro Direto a modalidade favorita para alocar estes tipos de recursos, com o argumento que, quando você precisar sacar estes valores, você não terá prejuízo. Porém não foi o que vimos no último mês.

É importante deixar algo claro: Estas pessoas que deram este tipo de conselho não estavam erradas, pois eles dificilmente poderiam prever que haveria uma série de situações que levaria a este resultado, situações estas que explicaremos a seguir.

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Taxa Selic baixa

A grande maioria dos países economicamente desenvolvidos possui um Banco Central que dentre as diversas responsabilidades que possuem, uma delas é determinar a Taxa de Juros da sua economia, que dentre os diversas razões para existir, uma delas é balizar o custo do dinheiro para empréstimo entre empresas e pessoas. No Brasil, esta taxa de juros é conhecida como TAXA SELIC.

Investidores institucionais por todo o mundo procuram sempre diversificar a sua carteira de investimentos entre ações, fundos imobiliários e títulos de renda fixa. Dentro da categoria Títulos de Renda Fixa, há as dívidas das empresas (CDB e Debêntures) e os Títulos de Dívidas Públicas. E dentro dos Títulos de Dívidas Públicas há dívidas de países seguros (EUA, Inglaterra, França) e de países não seguros (Argentina, México, Brasil).

Pense agora que um investidor vai investir 70% em dívida de países seguros e 30% em títulos de países não seguros a partir da tabela abaixo:

PAÍSGRAU DE SEGURANÇATAXA DE JUROS (a.a. %)
FrançaSeguro0%
EUASeguro0,25%
Emirados Árabes UnidosSeguro1,5%
ArgentinaNão-Seguro38%
MéxicoNão-Seguro4,25%
BrasilNão-Seguro2%
Fonte: https://pt.tradingeconomics.com/country-list/interest-rate

Ao observar esta tabela, podemos ver que os países seguros possuem taxas baixas, enquanto países não-seguros possuem altas taxas. Quando observamos o Risco x Retorno, vemos que o Emirados Árabes Unidos possuem uma taxa de juros atrativa dado ao baixo risco que oferece. Da mesma forma o México oferece uma taxa igualmente atraente dado o alto risco oferecido. EUA e França por serem países com economias consolidadas, oferecem um prêmio menor e a Argentina dado o alto grau de incerteza, oferece um prêmio altíssimo. Porém, o Brasil oferece um caso curioso: É um país de alto risco para se investir e com uma taxa de juros perto de países seguros de se investir, ou seja, o fator Risco x Retorno no Brasil não compensa e por este motivo muitos investidores vendem os seus títulos de dívida do Governo (Tesouro Direto), causando o efeito Fuga de Capitais. A consequência é a queda nos preços dos títulos negociados.

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Motivos para a Fuga de Capitais não faltam

Infelizmente o Governo brasileiro vem dando diversos motivos para que a fuga de capitais aconteça. Você verá que há uma relação de causa x efeito sobre as ações do governo na economia nacional, aliado ao efeito negativo da pandemia sobre a nossa economia e como um dos primeiros resultados, a queda nos rendimentos do Tesouro Direto:

O Brasil entrou numa rota de queda na Taxa Selic a partir de Junho/2019. Entre Março/2018 e Junho/2019, a taxa se manteve estável em 6,50% a partir daí o Banco Central derrubou a Taxa Selic a 2% em um ano. Os efeitos disto foram a desvalorização do Real frente ao Dólar, tornando em 2020 o Real como a pior moeda do mundo até o momento.

Taxa Selic Histórico
Fuga de Capitais no Brasil

Com a desvalorização do Real, nossos produtos ficaram mais baratos para a exportação, fazendo com que o mercado interno vendesse mais produtos para fora, gerando escassez no mercado interno. Somando a escassez de alguns produtos (o arroz foi o maior exemplo deste efeito) com o Auxílio Emergencial, que injetou muita liquidez no mercado, tivemos descontrole inflacionário, refletido na alta galopante do índice IGP-M e também na alta do IPCA.

Além dos efeitos econômicos, há também os efeitos políticos. O mês de Setembro/2020 foi marcado por diversos desencontros entre o Presidente Jair Bolsonaro e o Ministro Paulo Guedes sobre os programas de renda para compensar a alta taxa de desemprego causada pela pandemia. Um dos principais discursos que assustou os investidores foi a possibilidade de “furar” o teto de gastos, demonstrando descompromisso com as questões fiscais do país. Este tipo de gesto demonstra que o governo está disposto a gastar mais do que arrecada, criando problemas fiscais futuros ao país, assim como aconteceu em 2014. Outra frase que ecoou mal foi “deixar de pagar os precatórios dos aposentados”. Para quem não sabe, precatórios são renegociações de dívidas, sendo assim, o governo estava ameaçando não pagar a “dívida da dívida”.

Aí eu pergunto: Entre investir o seu dinheiro nos EUA com uma taxa a 0,25% ou investir no Brasil com uma taxa de 2%, qual país você escolhe? Pois é esta pergunta que os investidores se fazem, levando-os a vender os seus títulos das dívidas do governo brasileiro e culminando com a forte queda no curto prazo, trazendo prejuízos a quem os detinha.

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Prejuízo no Tesouro Direto

A soma de queda da atividade econômica por conta da pandemia + Taxa Selic a níveis de países desenvolvidos em um país subdesenvolvido + acenos políticos para a irresponsabilidade fiscal no país levaram todos os títulos do Tesouro Direto ao prejuízo, como podem ser observados na tabela abaixo retirada do site Infomoney.

Fonte: https://www.infomoney.com.br/onde-investir/tesouro-direto-com-risco-fiscal-em-alta-perdas-dos-titulos-publicos-chegam-a-124-em-setembro/

Para quem possuía as Reservas de Emergência ou Reserva de Oportunidade em qualquer título do Tesouro Direto e precisou sacar este valor em Setembro, provavelmente perdeu dinheiro, de acordo com a imagem acima.

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Tesouro Direto é Seguro?

Acho pouco provável que o governo dê calote para pagar os títulos do Tesouro Direto, mas em tempos incertos como os que estamos vivendo atualmente, com certeza acenar ao mercado com ações de irresponsabilidade fiscal não ajuda.

Você como investidor deve pensar que antes muita coisa ruim precisa acontecer para o Tesouro Nacional não ser capaz de honrar os pagamentos dos títulos do Tesouro Direto. Portanto, este investimento continua sendo seguro no curto e médio prazo.

Nas últimas semanas o Tesouro Nacional iniciou uma manobra de correção, emitindo títulos de dívida com vencimento em 6 e 12 meses e com retornos mais atrativos. Isto fez com que os investidores institucionais voltassem a comprar títulos do Tesouro Direto, trazendo um ânimo para a rentabilidade dos títulos.

Resta saber se o atual governo irá por caminhos da irresponsabilidade fiscal ou se pretende iniciar o processo das Reformas Tributárias, Administrativas e Privatizações, cortando gastos públicos e incentivando o livre mercado. Se optar pela primeira opção, veremos novos prejuízos para quem possui títulos do Tesouro Direto, além de um cenário ainda pior na economia brasileira.

Obrigado pela sua leitura e até o próximo artigo.


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